|
Santa Beatriz
da Silva
Fundadora da Ordem (contemplativa) da Imaculada Conceição
(também conhecidas por Concepcionistas Franciscanas)
Comemoração: 17 de agosto

A família
"...educada
num profundo espírito e virtudes cristãs."
De nobilíssima
família portuguesa, Beatriz da Silva e Menezes, nasceu na
graciosa e ensolarada vila alentejana de Campo Maior, no ano de
1424. Filha de D. Rui Gomes da Silva, Alcaide Mor da já mencionada
vila de Campo Maior e Ouguela e de Dona Isabel de Menezes, que era
filha de D. Pedro de Menezes que foi Governador da Praça
de Ceuta, nessa altura pertencente à coroa dos reis de Portugal.
Os pais de Beatriz pertenciam à primeira nobreza e estavam
ainda aparentados com a família real.
Beatriz passou
a sua infância e adolescência nesta nobre vila, rodeada
do carinho de seus pais que a educaram num profundo espírito
e virtudes cristãs.
Foi a oitava
de doze irmãos: Pedro, Fernando, Diogo, Afonso, João
(Beato Amadeu da Silva, fundador do ramo franciscano dos frades
Amadeus, hoje extinto), Branca, Guiomar, Beatriz, Maria, Leonor,
Catarina e Méscia.
Na Corte
"...enchia
de fervor com o seu exemplo".
Para Beatriz
decorria tranquila a vida no velho solar de Campo Maior. Totalmente
entregue a Deus, tinha esquecido o mundo com toda a sua agitação,
embora vivesse nele.
Mas o Senhor
tinha-a criado para coisas maiores que esta vida calma, e, para
isso, tinha de a fazer passar pelo crisol do sofrimento, como costuma
sempre fazer com os eleitos do seu coração.
Quando chegou
aos 18 anos, Beatriz cujos predicados e virtudes raramente se vêm
em humana criatura, deram motivo à rainha Dona Isabel, filha
de D. Duarte, rei de Portugal, e esposa em segundas núpcias
de D. João II de Castela para levar por sua dama, para a
Corte, a jovem Beatriz, que era sua parente muito chegada. Primeiro
para Lisboa e a quando do casamento com D. João II de Castela,
para Tordesilhas. A virtuosa dama era o mimo, e todo o desvelo da
rainha que não podia estar sem ela um só instante.
Só a jovem dama conseguia moderar alguns dos excessos da
temperamental rainha de Castela que, se enchia de fervor com o seu
exemplo e, quando a via entre as Senhoras e Damas da Corte de Castela,
tinha grande satisfação de que a sua portuguesa brilhasse,
como a mais bela das rosa entre as flores, e resplandecesse, como
lua entre as estrelas. Diz-nos uma biografa da Santa, que Beatriz
"era formosíssima, prudente, afável, inteligente,
composta e de muita gentileza", e outro autor: "que era
bela, maravilhosamente bela, até ao deslumbramento".
O Ciúme
"...procurava
viver em recolhimento, dando todo o seu amor e o maior tempo possível
a Deus, o verdadeiro Senhor do seu coração."
Costuma dizer-se
que há males que vêm para bem, e vice-versa, que há
bens que vêm para mal. E foi precisamente o caso de Beatriz.
Porque a felicidade humana é inconstante e falível,
não podiam durar por muito tempo os excessos de carinho e
de atenção da rainha para com a jovem dama portuguesa.
A sua beleza,
graciosidade e doçura, levou muitos nobres a pretendê-la
para casar, aos quais, ela negou sempre a sua mão.
Mas, o facto
mais doloroso, foi causado pelo ciúme da rainha que, chegou
ao cúmulo de a fechar numa cofre, para que Beatriz ali morresse
asfixiada. Tudo por ciúme, devido às atenções
que o rei dava à jovem, que, de forma alguma, procurava atrair
sobre si as atenções de quem quer que fosse, muito
pelo contrário, procurava viver no recolhimento, dando assim
todo o seu amor e o maior tempo possível ao Pai Eterno, o
verdadeiro Senhor do seu coração.
A visão
"...a
sua vocação: fundar uma Ordem com o fim de honrar
a Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria".
Foi, porém,
naquela prisão, que a Santa recebeu em plenitude o "Dom
de Deus", e lhe foi dada a conhecer a sua futura missão,
a sua vocação: a de fundar uma Ordem, com o fim de
honrar a Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria.
Nos três
dias que permaneceu naquela escura prisão, apareceu-lhe a
Santíssima Virgem com o menino nos braços. Trazia
vestido um hábito todo branco e escapulário da mesma
cor, e a cobri-la um manto azul.
Era vontade
de Deus e de Maria que, Beatriz, fundasse uma Ordem destinada a
defender e honrar o Mistério da Imaculada Conceição.
O inesperado
"...a
rainha deu-lhe licença e liberdade para ir viver aonde mais
fosse de sua vontade".
O desaparecimento
da jovem dama, provoca no seu tio D. João de Menezes (que
também se encontrava na corte de Tordesilhas, ao serviço
de D. João II de Castela), grande preocupação,
até porque ele sabia do grande ciúme que a rainha
nutria por Beatriz e temia o pior.
À pergunta
de D. João de Meneses a Dona Isabel, sobre o paradeiro da
sobrinha, a rainha respondeu-lhe «que viesse vê-la»,
e levou-o ao sítio onde a deixara encerrada, certa de que,
ao abrir o cofre, a encontraria morta.
Viva a viu
aparecer, e mais bela do que nunca! A rainha, pasmando do que tinha
diante de si, não atinava que dizer - conta soror Catarina
- e, assombrada duma coisa tão inesperada, não queria
dar crédito aos seus próprios olhos, que viam o que
naturalmente era impossível sucedesse.
Com este espanto,
e, ao mesmo tempo, para se livrar da ocasião de voltar a
criar problemas à dama Beatriz, a rainha deu-lhe licença
e liberdade para ir viver aonde mais fosse de sua vontade.
Certamente
que esta «experiência de encarceramento» foi,
na vida de Beatriz, um marco importante que a levou a dar uma grande
viragem no rumo da sua vida e a levou a abandonar a vida palaciana
da corte de Tordesilhas e a retirar-se para Toledo.
Em viagem
"Este
encontro deixou-lhe na alma uma grande consolação
e abriu-lhe o entendimento às realidades sobrenaturais".
A viagem para
Toledo foi longa, arriscada e muito difícil, o que revela
a personalidade forte e decidida de Beatriz.
É significativo,
o episódio que ocorreu durante a viagem e que, todos as biógrafos
da santa, são unânimes em relatar.
"Foi o
caso que, no caminho para Toledo, ao passar por um monte (Beatriz),
viu sair de trás dele dois religiosos da Ordem do meu Padre
S. Francisco, e, julgando fossem enviados da rainha a fim de a confessarem
para que depois lhe fosse tirada a vida, entrou, em grande temor;
e não foi muito, que assim fizesse, quem havia experimentado
os arrojos do zeloso peito duma rainha. (...) Acercaram-se os religiosos,
e, um deles, que por seu modo parecia português, saudando-a
na sua língua materna, lhe perguntou a causa da sua aflição
e pena".
Depois de saberem
dos temores da nobre viajante, tranquilizaram-na os dois frades
e falaram-lhe da fundação da Ordem da Imaculada Conceição.
E, assim, foram conversando durante a viagem para Toledo. Mas tal
como os discípulos de Emaús, também os dois
frades desapareceram aos olhos de Beatriz e da sua comitiva, quando
esta insistiu com eles, para que partilhassem com ela a ceia na
próxima pousada.
Este encontro
deixou-lhe na alma uma grande consolação e abriu-lhe
o entendimento às realidades sobrenaturais e compreendeu
que os seus companheiros de viagem eram Santo António de
Lisboa e São Francisco de Assis.
Em São
Domingos "O Real"
"Florescia
em todas as virtudes, era tida por santa e obrava milagres".
Depois do sucedido
e, com a autorização da rainha, Beatriz, retirou-se
para a cidade de Toledo, onde viveu, voluntariamente, em completo
encerramento, no Convento Dominicano de São Domingos O Real,
ou O Antigo. Ali passou trinta longos anos, como pisadera, longe
de tudo e de todos os seres queridos e totalmente desprendida das
vaidades terrenas e desejos mundanos. E, como a formosura do seu
rosto foi a causa de tantas discórdias na corte, cobriu o
rosto com um véu branco durante o resto da sua vida, salvo
em raríssimas excepções.
No mar, o navio
é presa fácil do risco dos ventos, se, porém,
chegar a um calmo e tranquilo porto, já não teme calamidades,
mas está seguro. Também Beatriz, enquanto se encontrou
no meio dos homens, contou com tribulações, riscos
e embates contra a sua sensibilidade. Mas, ao chegar ao porto do
silêncio, para ela preparado, não mais teve medo, e
entrega-se toda nas mãos de Deus, confiando no Seu amor sem
medida.
Não
fazia parte das religiosas que compunham a comunidade, mas, ali
vivia como uma delas, em completa vida de clausura. Como nos canta
soror Catarina: Beatriz "Florescia em todas as virtudes e comia
parcamente, que era tida por santa e obrava milagres, que se distinguiu
sempre por sua humildade e obediência às superioras"
do dito Convento de São Domingos O Real e a sua vida era
verdadeiramente exemplar. Das rendas, que possuía, reservava
uma moderada parte para o tratamento, e decência da sua pessoa,
e, tudo o mais, o gastava em esmolas e outras obras de piedade.
Há almas que aspiram a uma perfeição mais elevada,
a uma união mais íntima com Deus. E só pela
entrega total de si mesmo se entra neste caminho de perfeição
e de união com Deus. Contudo, quem diz "entrega total",
diz "renúncia total". Deus de todos espera o desapego
completo de tudo o que não seja Ele. O mais pequeno vínculo
impede a alma de levantar voo. Por isso, é urgente perder
tudo, para ganhar O Tudo. É urgente entregar tudo o que temos
e somos sem hesitação.
O mercador
de pérolas do Evangelho, vendeu todos os seus bens para comprar
a pérola mais fina que tivera a sorte de encontrar. Beatriz,
por sua vez, renunciou à sua luminosa beleza, à sua
posição social, à sua fortuna e à possibilidade
de fazer um casamento invejável, aos olhos do mundo, para
se fechar num Convento, onde nem sequer era freira. Assim, sem vínculo
nenhum, poderia levantar voo e voar na imensidão do amor
de Deus e saciar a sua sede na fonte da Água Viva. Preparando-se
desta forma, para a Obra a que fora destinada pela Imaculada.
A espera
"...mantinha-se
simplesmente à escuta do que Deus lhe ordenava".
A nós,
que vemos os acontecimentos no seu aspecto meramente exterior, sem
muitas vezes, poderem apreender-se as realidades profundas que essas
aparências encobrem, parecerá incompreensível
esta demora tão grande em realizar planos que se sabia serem
divinos. Que significavam tantos anos de aparente inacção,
segundo os nossos juízos? Que fazia Beatriz da Silva e Meneses
em São Domingos O Real, onde, nem sequer era religiosa? Porque
esperava?
Ora, tais circunstâncias,
levam-nos a crer que ela se mantinha simplesmente à escuta
do que Deus lhe ordenava. Ia-se exercitando na conquista de uma
das virtudes mais difíceis de praticar quando se deseja um
bem que tarde em vir; a paciência, na perfeita conformidade
com a Vontade de Deus.
"Poucas
vezes uma fundadora terá sido preparada tão profunda
e prolongadamente para a sua missão carismática"
Quando ela
atingiu o grau de perfeição na virtude requerido para
empreendimento tão sublime, corria o ano de 1484, recebeu
então a ordem aguardada durante trinta longos anos entre
os muros de São Domingos "O Real". E logo se seguiu
um período de intensa actividade, a esses longos anos vividos
na obscuridade e no silêncio do claustro.
Os preparativos
"Com a
sua admirável generosidade, passou a dar-se sem reservas,
ao cumprimento da missão que Deus lhe confiava".
Dizem os biógrafos
da Santa fundadora, que lhe apareceu outra vez a Mãe de Deus,
tornando a mostrar-lhe como haveria de ser o hábito que trariam
vestido as suas religiosas, pois, já o havia feito, a quando
da visão no cofre em Tordesilhas, e, ainda, para lhe dizer
que tinha chegado o tempo de pôr mãos à realização
da Obra. Tinha soado a hora para a qual Beatriz da Silva orientara
o curso de toda a sua vida, na qual concentrara todos os seus esforços
e, para a qual, dirigira todas as suas aspirações.
Urgia, agora, dedicar à realização da sua Obra
todas as forças e o tempo que lhe restava viver na terra.
Com a sua admirável
generosidade, passou a dar-se sem reservas, ao cumprimento da missão
que Deus lhe confiava. Finalmente, o sonho que iluminara toda a
sua vida, o desejo que o seu coração acalentava de
espalhar pelo mundo a devoção à Imaculada Conceição,
e honrar através da sua futura Ordem, este mistério
tão grande e tão sublime, começava a realizar-se
e a criar forma.
A fundação
"Terão
como carisma próprio o da Imaculada Conceição".
Ajudada pela
rainha Isabel "a Católica", que lhe deu os palácios
chamados de Galiana, por terem outrora pertencido à princesa
Galiana, filha de um rei mouro que os mandara construir propositadamente
para esta sua filha, bem como a Igreja de Santa Fé, situada
junto ao Palácio de Galiana. Beatriz deixa o Convento de
São Domingos O Real, onde viveu 30 longos anos, para se instalar
com mais doze donzelas de muita virtude e nobreza, no local que
a rainha lhes oferecera. Entrou com grande alegria nessa casa tão
desacomodada e, logo, deu ordens para que se fizessem as obras necessárias
e conveniente para a transformar num Convento de religiosas contemplativas
de clausura, começando por arranjar a Igreja. Tanto que,
logo que se instalaram no seu Convento de Santa Fé, e, provido
este, do essencial para a vida comunitária contemplativa,
ordenou a santa fundadora o modo de viver que haviam de guardar
ela e suas filhas e, composta a Regra, a enviar ao Sumo Pontífice
Inocêncio VIII com petição da rainha Isabel
"a Católica" para que Sua Santidade aprovasse esta
Ordem com o título da Imaculada Conceição,
bem como a Regra, o modo de rezar e de vestir (o hábito).
Foi, por meio
de um «estranho» mensageiro, que a fundadora soube que,
Roma tinha expedido a Bula de aprovação da Ordem.
Contudo, mais tarde, chega a notícia de que o navio que transportava
a Bula de aprovação, tinha naufragado. Beatriz comunicou
o facto à rainha, e só teve uma ideia: por-se a rezar.
Ao fim de três dias, aparece a Bula num cofre do Convento.
Como aconteceu este «prodígio»? A verdade é
que, hoje, a dita Bula se encontra no Convento de Toledo. Inocêncio
VIII tinha dito sim ao pedido de Beatriz, com o apoio da rainha
Católica. Estava a Bula dirigida ao bispo de Coria e Catânia,
e ao Vigário de Toledo, para «executar a Bula»
em 1491. A Bula papal cita expressamente a rainha Isabel e soror
Beatriz, a quem autoriza a fundar um Convento, de clausura. Segundo
palavras de Sua Santidade: Nos foi humildemente suplicado que se
dignasse a Nossa Benignidade Apostólica erigir na referida
casa um Mosteiro de Monjas, sob a invocação da Imaculada
Conceição. Beatriz gozaria da dignidade de Abadessa,
e a casa teria campanário, dormitório, refeitório,
hortas e outras oficinas, na qual vivam as religiosas em comunidade
sob a regular observância e perpétua clausura. E dá
poder à Abadessa para que possa formar estatutos e ordenanças.
Vestirão de branco, com manto cor (azul) celeste, e, «no
manto e escapulário, tragam fixa a imagem da Virgem Maria,
e se cinjam com uma corda de canhamo, à maneira dos Frades
Menores». Terão como carisma próprio o da Imaculada
Conceição. A Bula «Inter Universa» está
datada de 30 de Abril de 1489, quinto ano do Pontificado de Inocêncio
VIII. É esta, certamente, a autorização solene,
oficial e pontifícia para a Fundação.
E, finalmente,
no antigo palácio, de uma princesa moura, tem o seu berço
a Ordem da Imaculada Conceição, melhor dizendo, começam
a escrever-se com letras de luz, silêncio e oração
as glórias da Imaculada Conceição.
A passagem
"...no
ocaso da vida tudo passa, só Deus fica e o que por Ele tivermos
feito".
Seis anos passaram
estas almas desejosas de uma entrega radical, à espera que
lhes chegasse a aprovação de Roma. Quando esta, finalmente
chega, a Obra começa a desenvolver-se em pleno. No entanto,
um novo sacrifício lhes estava reservado.
Tinha já
sido marcada pelo Bispo de Toledo, a festa das profissões,
de Beatriz e das suas doze companheiras, quando a Santíssima
Virgem de novo lhe aparece dizendo-lhe: - "Dentro de dez dias
virei buscar-te porque não é vontade de Meu Filho
que gozes aqui na terra o que tanto desejastes".
Duro golpe
difícil de compreender, mas que Beatriz aceita com o coração
em festa, como através de toda a sua vida aceitou sempre
qualquer manifestação da Vontade do Pai Eterno. E
nisto consistiu precisamente o segredo de toda a sua santidade,
pois, só no cumprimento da vontade de Deus, reside o segredo
da santificação de qualquer alma. Fora desta vontade
não há santificação possível.
Efectivamente,
no dia preciso em que estava marcada a festa do início da
Ordem, Beatriz voou para o Céu, tendo, antes, recebido o
hábito branco e azul, como a Senhora lhe tinha indicado,
e feito nas mãos de um sacerdote Franciscano, a sua Profissão
Religiosa. Morria assim, como uma verdadeira Concepcionista. A noite
da sua vida passara. Tinha sido uma noite de lutas e sofrimentos
em que venceu, é certo, mas que, para isso, teve de lutar
denodadamente. Tudo agora findava, melhor, tudo agora começava,
e morria feliz, pois, como diz o autor, "no ocaso da vida tudo
passa, só Deus fica e o que por Ele tivermos feito".
É que, na eternidade seremos julgados, não tanto pelo
muito que fizemos ou possuímos, mas pelo muito que amámos.
E Beatriz viveu uma vida intensa de amor e de entrega total a Deus.
A estrela
"...do
seu rosto saiam raios de luz e uma estrela luminosa fixou-se-lhe
na testa e ali permaneceu até que soltou o último
suspiro".
No momento
da sua morte há um pormenor que não pode ser esquecido.
Desde que saíra da Corte de Tordesilhas, Beatriz cobria o
seu belíssimo rosto com um véu branco a fim de ocultar,
aos olhos de todos, a sua grande beleza que fora causa de tantos
desgostos e dissabores. E, assim, viveu os cerca de trinta anos
que durou a sua vida retirada no Convento de S. Domingos "O
Real", e depois já no seu Convento definitivo.
No momento
derradeiro, ao levantarem-lhe o véu para lhe ser administrado
o sacramento da Unção dos Enfermos, todos viram, com
assombro, que, do seu rosto, saiam raios de luz que iluminaram todo
o aposento em que se encontravam, e uma estrela luminosa fixou-se-lhe
na testa e ali permaneceu até que soltou o último
suspiro. E é este o motivo pelo que a imagem da santa de
Campo Maior se representa com uma estrela na fronte. Esta significa,
certamente, a luz que ela irradiou então e que continua,
ainda hoje, a irradiar ao longo destes cinco séculos que
nos separam já da sua morte, ocorrida em Toledo no dia 9
de Agosto de 1492.
Luz que brota
do testemunho de vida de Beatriz, que "...toda se abandonou
à vida de santidade..." e das suas filhas, que encerradas
nos seus Conventos seguem as pisadas da sua mãe e mestra,
vivendo os rigores do evangelho.
Depois da
morte
"...todas
viviam unidas, «num só coração e numa
só alma»".
Como nos conta
Soror Catarina: "Logo que a serva de Deus expirou pensaram
as religiosas de São Domingos levar para o seu Convento,
não só as doze religiosas, porque não haviam
professado e ficavam sem Madre, senão também o venerável
corpo da Fundadora, porque, tendo vivido tantos anos com elas, julgavam
que lhes pertencia; e, nesta ideia, começaram a fazer diligências,
levando em seu auxílio alguns religiosos da sua Ordem para
conseguirem levar a cabo a sua empresa, e, por conseguinte, para
que a casa e Ordem da Imaculada Conceição ficasse
desfeita. Não era porém essa a vontade do Senhor,
que constantemente velava pelas suas servas; e não queria
que desaparecessem de sobre a terra; e, por isso, mais uma vez as
ilustrou com um novo milagre, como foi o aparecimento da Santa Fundadora
a frei João de Tolosa."
Antes, mesmo,
da chegada de frei João de Tolosa já os religiosos
franciscanos de Toledo haviam impedido que o corpo de Beatriz da
Silva fosse levado pelas religiosas de São Domingos "O
Real" e o sepultaram na Igreja de Santa Fé, junto às
suas filhas.
Contudo, as
religiosas de São Domingos não desarmaram e, visto
que, não tinham conseguido os restos mortais da fundadora,
pelo menos, achavam-se no direito de reclamar para si as doze jovens
que faziam parte da comunidade de Beatriz, argumentando que estas
ainda não tinham tomado hábito nem feito votos.
Foi, neste
contexto, que frei João de Tolosa veio encontrar as jovens
discípulas de Beatriz da Silva. Imediatamente este ilustre
franciscano fez desistir dos seus intentos as religiosas de São
Domingos "O Real" e marcou, para dentro de oito dias,
a tomada de hábito e a profissão religiosa das doze
valorosas filhas de Beatriz. Tendo sido nomeada para Abadessa soror
Filipa da Silva, sobrinha da fundadora.
Contudo, não
ficaram por aqui as dificuldades por que teve de passar a jovem
comunidade Concepcionista.
As religiosas
Beneditinas do Mosteiro de São Pedro das Donas haviam decaído
um pouco no fervor primitivo da sua Ordem. Por isso, o Reformador
Geral de todas as Ordens no Reino de Castela, frei Francisco de
Cisneros, ordenou que o Convento de Santa Fé e o Mosteiro
de São Pedro das Donas se juntassem num só. Passando
as religiosas de Santa Fé a viver no Mosteiro de São
Pedro das Donas. Por outro lado, por breve do Papa Alexandre VI
as monjas das Donas passavam a vestir o hábito da Ordem da
Imaculada Conceição e adoptavam a forma de viver desta
jovem Ordem. E ainda, deveria a Abadessa de São Pedro das
Donas renunciar ao seu cargo em favor de Madre Filipa da Silva que
passaria a ser a Abadessa da nova comunidade.
No entanto,
as mudanças não foram fáceis, pois, graves
divisões surgiram na comunidade, que, por três vezes,
esteve à beira da extinção, devido às
reforma implantadas por Madre Filipa da Silva e que, desagradaram
muito às antigas religiosas de São Pedro por não
aceitarem que uma Ordem mais nova, viesse impor a uma Ordem mais
antiga correcções e tradições.
A tal ponto
chegou a situação que, frei Francisco de Cisneros,
à data, arcebispo de Toledo, esteve a ponto de ordenar se
extinguisse de vez a Ordem da Imaculada Conceição.
Não era esse, no entanto, o projecto de Deus que levou o
ilustre prelado a fazer uma última tentativa para repor a
unidade e a caridade no referido Convento. Para isso, dirigiu às
religiosas do dito Convento, uma veemente exortação
a que se apaziguassem. Conta-nos Soror Catarina que o arcebispo
lhes falou com tão inspirado afecto que lhes abriu o coração
e os pacificou de tal maneira que, as que haviam abandonado a comunidade,
voltaram bastante emendadas, conformando-se todas numa só
vontade e amor, transformando-se o Convento num autentico paraíso.
E dava gosto,
depois, ver o Convento da Imaculada Conceição, onde
todas viviam unidas, "num só coração e
numa só alma".
Depois destas
duras provas, a Ordem da Imaculada Conceição entra
num período de grande florescimento, tornando-se numa das
maiores Ordens Religiosas femininas de vida contemplativa, da Igreja.
A glorificação
"...a
Igreja sente necessidade e alegria em nos dizer que Beatriz da Silva,
é Santa".
Ao longo da
história, Deus suscita homens e mulheres que, compreendendo
o único Absoluto, e que foram capazes de assumir atitudes
de vida que, ainda hoje, têm lições de vida
e de sabedoria. A vivência do Evangelho continua a gerar verdadeiros
sábios em todas as épocas, que, com os seus exemplos
e palavras, possuem uma força de persuasão que não
vem dos livros, mas do Espírito Santo.
Inteiramente
abandonados à acção de Deus, os santos deixam-se
conduzir pelo Espírito Santo por caminhos desconhecidos,
até ao dom total de si mesmos. E foi o que aconteceu com
Beatriz da Silva e Menezes, por isso mesmo, a Igreja sente necessidade
e alegria em nos dizer que, fundadora da Ordem da Imaculada Conceição,
faz parte deste grupo de obras-primas da criatividade do Espírito
Santo e que nunca se repetem, que são os Santos. E fá-lo
oficialmente, quando o Papa Pio XI a 28 de Julho de 1926 a beatifica
e a 3 de Outubro de 1976, o papa Paulo VI a canoniza.
Oração:
Lembrai-vos
ó Santa Beatriz da Silva, das muitas angústias e tribulações
pelas quais passastes nesta vida e intercedei por nós.
Ó Santa
Beatriz, virgem singularmente amada de Maria Imaculada, alcançai-nos
a pureza da alma e do corpo, com a graça que ardentemente
vos suplicamos.
Amém.
(biografia
enviada por P. Marcelino
Caldeira)
|
|